
Em tempos de vida acelerada e poucas oportunidades para ouvir histórias, conhecer a trajetória de Renato Martins das Chagas é um verdadeiro convite a voltar no tempo. Prestes a completar 90 anos, no dia 19 de janeiro, seu Renato abriu o coração em entrevista concedida à Rádio Ibirubá, no programa Comando Regional, e relembrou com lucidez, emoção e simplicidade nove décadas de uma vida marcada por trabalho, superação e família.
Natural da localidade de Fortaleza dos Valos, à época pertencente a Cruz Alta, Renato nasceu em 1936, filho de Antério Chagas e Lúcio Leomarto da Chagas, em uma família de quatro irmãos. Desde muito cedo, ainda menino, conheceu a dureza do trabalho na roça, realidade comum naquele tempo. “Sempre trabalhei. Desde pequeno”, resume, com a serenidade de quem nunca fugiu da lida.
Ainda criança, mudou-se com a família para a Colônia São João, lugar onde se criou e que até hoje ocupa espaço especial em sua memória. As diversões eram simples: cavalos, carreiras improvisadas e brincadeiras de guri. “A melhor diversão era o cavalo”, recorda, com brilho nos olhos.
Amor, coragem e o começo de tudo
Foi também na juventude que viveu uma das histórias mais marcantes de sua vida: o início do namoro com a primeira esposa, episódio que começou de forma curiosa, durante a venda de uma rifa em uma festa na Fortaleza. O namoro virou casamento quando Renato tinha cerca de 19 anos, união que durou 21 anos e rendeu filhos e muitas histórias.
Casado, construiu sua casa em terras da família e iniciou o plantio de arroz, mesmo sem recursos, sem bois e sem garantias. “Era só na coragem”, lembra. Com ajuda improvisada — uma junta de cavalos emprestada — conseguiu plantar e colher 160 sacos de arroz, resultado que marcou o início de sua independência financeira. “Ali começou a minha vida”, afirma.
Mudança para Ibirubá e nova etapa
Após 11 anos morando na Fortaleza, Renato mudou-se para Ibirubá, em 5 de junho de 1970, onde reside até hoje. Aqui, enfrentou novas dificuldades, trabalhou como empregado e passou por diferentes atividades. Atuou na Coprel, ainda nos tempos iniciais da cooperativa, trabalhando em turmas no interior, e depois por 15 anos no Supermercado Jung, onde exerceu diversas funções, inclusive como motorista de entregas.
Com o tempo, abriu seu próprio mercado e seguiu trabalhando até se aposentar. Ao longo da vida, Renato teve sete filhos, todos criados e hoje adultos, além de netos e bisnetos, que considera seu maior patrimônio. “Minha família é tudo pra mim”, afirma emocionado.
Versos, violão e saudade
Além de agricultor e trabalhador incansável, seu Renato também foi poeta improvisador. Sem nunca escrever, criava versos de memória, muitos deles relembrando a infância, a roça, o cavalo tostado, o violão afinado e os bailes da Colônia São João. Alguns desses versos ficaram registrados em projetos culturais e emocionam pela simplicidade e verdade.
Hoje, já aposentado e acolhido pela família, Renato segue com saúde, memória preservada e gratidão pela vida. Questionado se mudaria algo em sua história, responde sem hesitar: “Se pudesse, viveria tudo de novo”.
Exemplo que atravessa gerações
Aos 90 anos, Renato Martins das Chagas é mais do que um aniversariante: é símbolo de uma geração que construiu a vida com esforço, coragem e fé. Sua história reforça que, mesmo diante das dificuldades, a vida vale a pena — e que ouvir quem veio antes é uma forma de aprender a valorizar o presente.
Ao final da entrevista, deixou sua mensagem simples e sincera: agradecer a Deus, à família e aos amigos. E, com o sorriso de quem viveu intensamente, celebrou mais um capítulo dessa longa e bonita história.
Reportagem/Radialista Onei de Oliveira/Sistema EPU de Comunicação
Transcrição/Texto: Jornalista Francisco Darold